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Entrevistas

  • 15 de Janeiro de 2011

    O DEM deve deixar o conservadorismo

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    Para Ney Lopes, o DEM deve deixar o conservadorismo e assumir o liberalismo.

    Jornalista, advogado, professor de direito constitucional da UFRN, fundador do DEM e ex-deputado federal por seis legislaturas, Ney Lopes, 65, é membro histórico, fundador e integrou o primeiro Diretório Nacional do Partido da Frente Liberal (PFL), hoje Democratas, criado em 24 de janeiro de 1985, como solução política de apoio a Tancredo Neves à Presidência da República e o meio de viabilizar a redemocratização do país.

    Ney elegeu-se deputado federal nesta sigla partidária em seis legislaturas. Presidiu o Instituto de Altos Estudos Políticos do Partido (à época Instituto Tancredo Neves); o Parlamento Latino-Americano e a Comissão Mista do MERCOSUL no Congresso Nacional. Durante todo o período de mandatos integrou a lista dos "cem cabeças do Congresso Nacional". A sua trajetória política se caracteriza pela defesa de bandeiras econômicas e sociais em beneficio do RN, geradoras de emprego e novas oportunidades, tais como, a área de livre comércio ao lado do futuro aeroporto de São Gonçalo do Amarante; a defesa da inclusão do Estado na ferrovia transnordestina; a criação de núcleos de produção exportável nas várias regiões estaduais, em apoio à área de livre comércio; recrutamento dos talentos jovens do Estado; cooperação e parcerias internacionais em prol do desenvolvimento estadual, sobretudo transformando o RN em local ideal para turismo de eventos, a exemplo de Guadalajara no México.

    Ney Lopes é autor do projeto de lei que cria as regiões administrativas brasileiras, com incentivos e estímulos ä atividade agrícola e industrial no Norte, nordeste e centro-oeste. Ele também promoveu articulações para a criação do Merconorte, que criaria mercado consumidor na fronteira nordeste e norte do Brasil com países latino-americanos.

    Com a sua experiência e vivência, respeitada nacionalmente, Ney Lopes analisa nesta entrevista o futuro dos Democratas, das oposições brasileiras e o governo da sua correligionária Rosalba Ciarlini.

    Como o Sr. analisa o futuro do DEM após a vitória do PT na disputa presidencial?

    O DEM não é exceção no impacto sofrido pelos partidos oposicionistas, após a vitória da presidente Dilma Rousseff. Em política, derrota é um fenômeno normal. O PT e Lula foram derrotados na disputa presidencial em 1989, 1994 e 1998 e nem por isto o mundo desabou. Em política, a única derrota definitiva é a morte biológica. Quem diria que Collor retornaria vitorioso à vida pública como senador? Em 1994, a ex-governadora Wilma de Faria no PDT conquistou a quarta posição na disputa pelo governo do RN, alcançando 35.591 votos, perdendo para o vereador Fernando Mineiro, que teve 44.596 votos. Em seguida, se elegeu prefeita de Natal e governadora por dois mandatos. Em 2002, o PMDB do ex-governador Aluizio Alves foi derrotado na disputa do governo por José Agripino, com mais de 100 mil votos. Logo depois, ele assumiu dois ministérios da República e voltou a ter mandato popular. O futuro do DEM vai depender, na minha modesta opinião, da definição de novos rumos no futuro.

    Que rumos seriam estes?

    Mesmo sem voz, por não ter mandato, faço análise particular sobre o futuro do DEM. O partido lutará para sobreviver, não em função da derrota presidencial última, mas por ter conduzido o pesado ônus do rótulo de partido conservador, quando na verdade o liberalismo social é uma bandeira de mudanças sociais, com maior aproximação às teses progressistas (e até de esquerda moderada), do que os democratas sociais. O partido esqueceu de que viabilizou a redemocratização, permitindo as eleições diretas no país. Infelizmente, o discurso liberal confundiu-se com a proteção às elites e a cultura patrimonialista, sendo muitas vezes no período FHC "mais realista do que o rei". A história, ao contrário, mostra que a partir do século XIX, a verdadeira doutrina liberal-social assumiu o perfil de força revolucionária e mobilizou as massas pobres, oprimidas pelos nobres e pelos reis absolutistas. Os liberais ingleses em pleno laissez faire implantaram a proteção do trabalhador (horas extras e outros direitos). Um dos pioneiros das idéias autenticamente liberais no Brasil foi o jornalista Hipólito da Costa, fundador do respeitável periódico Correio Braziliense. O liberal Sobral Pinto, um brilhante defensor dos presos políticos de 1964 e de Carlos Prestes, líder comunista, após a sua prisão no levante de 1935. Na inadiável refundação - para usar a palavra da "moda" - caberá ao DEM adequar-se às bandeiras da verdadeira doutrina liberal-social.

    E se isto não ocorrer, o partido será extinto?

    Na sua refundação, o DEM poderá, se for o caso, assumir em definitivo a posição de "partido conservador", a exemplo de partidos da Colômbia e tantos outros países. Certamente, será melhor sucedido, do que com a hibridez atual, embora pessoalmente discorde desta alternativa.

    O Sr. continuaria filiado a um partido conservador?

    Sempre fiz política com posições claras. Tive que abrir os espaços com as mãos, sangrando. Não foi, nem é, fácil. Porém, em toda minha vida procurei conciliar. Ser veemente não é sinônimo de desagregar. Até a Bíblia condena os "mornos".  Nunca criei problemas para o meu partido ou seus líderes, ao contrário de quem traiu, afastou-se e depois volta com mordomia total. O que mais me incomoda é esta conotação conservadora do DEM. Nunca fui - nem serei - um conservador. Aliás, no partido discordei ao longo do tempo de muitas posições assumidas nesta linha. Num mundo global e dinâmico, a inovação e a mudança, que não desvalorizem a experiência adquirida, são fundamentais para a montagem de uma sociedade livre e justa.

    O Sr. é da linha da refundação do DEM?

    Segundo o jornalista Josias de Souza, o maior obstáculo é que os partidos brasileiros são agremiações de amigos 100%, feitos de inimigos. O axioma revela-se incontornável a cada eleição. Refundar, reorganizar, reformular, qualquer que seja a denominação dada, começará pelo discurso mais voltado para o confronto de idéias e o aperfeiçoamento das políticas públicas. Não há lugar para "nhem-nhem-nhem", na expressão do jornalista Jorge Bastos Moreno.

    A saída do prefeito de SP, Kassab, prejudica o DEM?

    A perda de um quadro competente como o prefeito Gilberto Kassab afetaria qualquer partido político. Fomos colegas na Câmara e o conheço muito bem. Repete-se a grande perda que foi a saída do prefeito do Rio de Janeiro Eduardo Paes, que faz uma excelente administração.

    E Ney Lopes saiu da política?

    Não. Apenas estou temporariamente sem mandato.

    E a governadora Rosalba Ciarlini será uma das vitrines para o Partido, que elegeu só dois governadores?

    Sem dúvida. Acredito e confio na governadora Rosalba Ciarlini. Acredito na sua competência e que fará um grande governo. Está começando muito bem.  Tem grande experiência administrativa e política pela grandiosa obra que fez em Mossoró, de onde saiu com expressivo índice de aprovação popular, ratificado na última eleição em todo o Estado.

    • Entrevista concedida ao JORNAL DE HOJE, de Natal, RN, no dia 15 de janeiro de 2011