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Entrevistas

  • 27 de Novembro de 2011

    "Meu sonho hoje é o Senado"

    diariodenatal-27-11-2011

     

    Pré-candidato a senador nas eleições de 2014, o ex-deputado federal Ney Lopes de Souza (DEM) disse, em entrevista a O Poti/Diário de Natal, que não sente mágoa da cúpula do seu partido, após ter sido escanteado várias vezes. Ele disse que é hora de olhar para o futuro e já adiantou que disputará a indicação da legenda para ser candidato nas próximas eleições. "Eu me coloco à disposição do meu partido para ser candidato a senador.

    Não temo concorrer com nenhum dos nomes que estão aí, porque nenhum deles fez mais pelo Rio Grande do Norte do que fiz como deputado federal. Agora, se o partido vai me escolher ou se serei prioridade não sei. Se eu tiver legenda para buscar representar o estado no Senado, irei. Só não posso ser candidato de mim mesmo. Vai depender do sistema", avaliou. O democrata comentou também a formação do parlamento do Mercosul, a situação do Democratas na conjuntura partidária nacional, as falhas do legislativo brasileiro, a demora na reforma política e a "privatização" dos partidos políticosbrasileiros. Confira a entrevista:

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    Em 2014, os eleitores brasileiros poderão eleger os membros do Parlamento do Mercosul. Por que essa eleição?

    Em 2014, haverá voto do eleitor para eleger 64 parlamentares do Brasil no Mercosul. É para dar legitimidade e integração aos países que compõem o Mercosul. Como a Europa tem o parlamento europeu, a Ásia tem o parlamento Asiático, o Mercosul terá seu parlamento dentro do seu bloco econômico.

    O sr. é candidato?

    Pretendo ser candidato. Coloquei o meu nome para concorrer pelo meu partido. A eleição se dará por meio de uma lista fechada. Os eleitores não votarão em nomes. Votarão nos partidos. Eu vou tentar incluir meu nome, pois tenho experiência nessa área. Fui presidente do Parlamento Latino-Americano (Parlatino) e fundador da União Parlamentar da Europa com a Amárica Latina.

    Essa experiência do voto em lista que será aplicada na eleição para o parlamento do Mercosul poderá ser aplicada em uma reforma política no Brasil?

    Essa matéria está sendo tratada de uma forma específica, em várias comissões. Não depende de reforma política.

    O sr. considera o sistema de listas o melhor para o sistema eleitoral brasileiro?

    Primeiro, a reforma política está engavetada. Isso é o maior mal que o Congresso pode fazer para a democracia. Eu sou favorável ao voto por lista. Esse é o modelo adotado na maioria dos regimes presidencialistas e parlamentaristas do mundo. Ele em nenhum momento diminui o peso do eleitor. Faz o eleitor votar no partido. As pesquisas que são feitas após as eleições mostram que grande parte dos eleitores não lembra, sequer, em quem votou nas últimas eleições. Mas se for no partido, ele vai lembrar. Sou favorável a esse sistema.

    Por que, após uma carreira longa no parlamento, o sr. resolveu não se candidar mais?

    Eu apenas não integro o legislativo. Mas jamais abandonei a política. Enquanto eu tiver vitalidade e saúde, estarei na política. Tenho pretensões políticas futuras, não apenas nas eleições do parlamento doMercosul, mas na disputa de 2014. Agora, a gente não pode ser candidato de si próprio. É preciso ser candidato de um sistema, de um partido. Eu tenho esperado o momento em que essa oportunidade me seja dada em função do serviço prestado que já tive em relação a mandatos anteriores. Não estou fora da política. Não digo dessa água não beberei.

    Como deputado federal, o sr. tinha bases eleitorais sólidas. Mas, nas eleições de 2010 não conseguiu eleger seu filho deputado estadual. Como o sr. pretende reconquistar esse eleitorado que perdeu quando deixou de disputar a vaga de deputado federal em 2006 para ser candidato a vice-governador na chapa de Garibaldi Filho?

    Eu tinha bases. Não tinha feudos. Quem votava em mim não era uma propriedade privada minha. O meu filho foi candidato dentro de um contexto que lhe faltou sobretudo meio de enfrentar máquinas de abuso de poder econômico que se montaram nas últimas eleições, não só no Rio Grande do Norte como no Brasil. Eu nunca me coloquei como líder. Fui um deputado atuante que sempre pedi o julgamento do eleitor. Se for feita a crítica de Ney Júnior não ter sido eleito, por que o sobrinho do senador (hoje ministro) Garibaldi Filho (PMDB) perdeu a eleição para vereador de Natal? Essas coisas acontecem. Ninguém é dono do eleitor. Cada eleição é um fato novo. A gente tem que lutar.

    O sr. escreveu artigo para "O Poti", no último domingo, afirmando que os militantes não influenciam na escolha dos candidatos dos partidos. É tudo um jogo de cúpula? Isso é democracia partidária?

    Infelizmente, não existe democracia partidária no Brasil. Isso é uma ficção. Por isso, a democracia brasileira e a governabilidade estão altamente comprometidas. A não ser em raras exceções, os partidos funcionam como propriedade privada de famílias. As decisões não são da militância. A lista poderia dar uma maior participação dos filiados, pois a ordem dos candidatos seria uma escolha interna do partido, em convenção.

    O sr. foi então excluído das escolhas do partido?

    Eu não fui candidato em 2010 porquenão fui convocado pelo partido. Declarei de alto e bom som que pretendia ser suplente do senador José Agripino. Mas não pude ser. Não guardo mágoas. Sei que foi da conjuntura política. Vou esperar ser convocado em outra oportunidade.

    Quais as suas pretensões para as eleições de 2014?

    Essa questão de deputado no Mercosul é uma hipótese. Mas minha pretensão para 2014, sem querer ser pretensioso, é realizar meu sonho, que é representar o RN do Norte no Senado Federal. Eu me coloco à disposição do meu partido para ser candidato a senador. Não temo concorrer com nenhum dos nomes que estão aí, porque nenhum deles fez mais pelo RN do que fiz como deputado federal. Agora, se o partido vai me escolher ou se serei prioridade não sei. Se eu tiver legenda para buscar representar o estado no Senado, irei. Só não posso ser candidato de mim mesmo. Vai depender do sistema.

    O sr. sairia do DEM para realizar o projeto de ser candidato a senador?

    Quem não saiu até agora é difícil sair depois. Sempre preservei - não sei se isso é bom para a sobrevivência política - a coerência partidária. Estou democraticamente colocando meu nome à disposição do meu partido para disputar a vaga de senador. Se serei, não sei.

    Hoje o deputado federal Henrique Eduardo (PMDB)

    é visto como candidato preferencial da aliança DEM-PMDB para 2014. A aliança entre os partidos caminha para isso. O sr. pretende concorrer com o peemedebista dentro do grupo?

    É o que eu leio nos jornais. O partido não me comunicou que houve acordo nem há declarações das lideranças partidárias sobre isso. A imprensa divulga. Com certeza, está sabendo mais do que eu.

    O sr. já foi escanteado pelo DEM várias vezes. Não se sente magoado por ter sido preterido na legenda desde 2006?

    Não. A política é cheia de circunstâncias. Tudo tem seu tempo. Se eu não fui candidato antes, não acredito que tenha sido por má-fé ou exclusão, mas por falta de condições eleitorais nas composição. Sinto-me revigorado para pleitear o futuro. Quero ajudar o partido e o Rio Grande do Norte, disputando o senado se for possível. Se não for, não serei rebelde nem criarei dificuldades.

    Mas o sr. tem um plano B, por exemplo, voltar a disputar o mandato de deputado federal?

    Não. Deputado federal não pretendo ser. Já fui seis vezes. Cumpri o meu dever. É natural que as pessoas queiram ter uma promoção. Minha pretensão é realmente chegar ao senado. Já representei o povo na Câmara. Quero representar o povo no Senado.

    Qual é a imagem que o sr. tem hoje do parlamento brasileiro?

    Acho que até o dia em que o Congresso nacional continuar se omitindo na reforma política, partidária e eleitoral, a imagem será péssima. As reformas dependem de uma restauração do sistema político. Sem isso, a democracia do país pode ser abalada na primeira crise que houver.

    Como o sr. avalia as interferências constantes do judiciário em atribuições do legislativo?

    O judiciário está preenchendo espaços vazios que o legislativo, por omissão, não foi capaz de preencher. É até uma coisa boa para o país. Veja a legislação eleitoral. As instruções do TSE são verdadeiras leis. Já que os deputados e senadores não votam, o judiciário faz suas determinações. Nesse ponto, acho que o judiciário deveser até aplaudido.

    Após a crise no Democratas, com a criação do PSD, como o sr. vê o partido na conjuntura atual? Qual a perspectiva de futuro?

    O Democratas tem na presidência do senador José Agripino, um perfil de luta e de coerência na legislação brasileira. É melhor preservar a qualidade do que a quantidade. É assim que o senador tem agido na oposição firme que vem fazendo. Quanto à perspectiva de poder, vai depender da conjuntura dos candidatos, das composições e do eleitorado. O Democratas tem hoje um presidente de uma junta executiva que persegue objetivos concretos de coerência. Em razão disso, acho que o partido só tende a crescer.

    Após a ascensão do PT à Presidência da República, a direita brasileira ficou estigmatizada como vilã. Esse desgaste atingiu em cheio os Democratas. Como o sr. avalia esse momento?

    Esse ceticismo de direita e esquerda já se acabou. Foi inventado por áreas radicais do PT, que cada vez se descaracterizam mais. O povo, o eleitor, está muito mais em busca de ideias e propostas. Você tira pelo Rio Grande do Norte, onde o senador José Agripino ganhou ao mesmo tempo em que a presidente Dilma Rousseff (PT) foi vitoriosa. Na cabeça do eleitor, não existe mais isso. Os político são julgados pelas suas posições, mais ou menos conservadoras, mais ou menos agressivas. Mas essa estigmatização de direita e esquerda desapareceu muito.

    Então como o Democratas pretende se portar daqui para frente? Qual a ideologia do partido?

    Eu sempre defendi quando estava lá (na Câmara Federal), como defendo hoje. O partido deve ser liberal social. O liberalismo se ajusta às condições econômicas e sociais onde é implantado. Em determinados momentos, como no final do século XIX, ele teve realmente características conservadoras. Não priorizava o social. Mas, no início do século XX, foram os liberais ingleses que criaram o imposto de renda. Não há nada mais socialista do que o imposto de renda. É uma conquista dos liberais, com uma conotação social. Acho que o Democratas deve assumir essa bandeira liberalsocial. Deveria ser Partido Democrata Social, com a ação política voltada para o social. Os radicais marxistas priorizam o social de uma maneira, os capitalistas de outra forma, os cristão de um outro jeito. Então, os democratas seriam os liberais sociais. Sempre defendi a mudança no programa do partido para levantar as questões sociais e ter coragem de levantar essa bandeira sem parecer demagogia. A questão das horas extras e a criação do impostode renda, foram obras de partidos liberais. Isso não é conservadorismo.

    Desde que o PT assumiu o poder, o DEM se tornou um apêndice do PSDB. Por que essa posição?

    Ao meu ver, o PT elegeu o Democratas como principal opositor, pois eles sabiam que era um partido com posições fortes, que sabia o que queria. Sabiam que o partido era rejeitado por uns, mas tinha um potencial de crescimento muito grande. Por exemplo, foram os democratas, o PFL de antes, que estabeleceram uma relação íntima com o PP da Espanha, que é um partido que tem hoje 80% dos votos. A ideologia dos democratas é muito próxima. O que há no Brasil é uma certa rejeição ao termo conservadorismo. Quando diz conservador, é porque é de elite. Na Europa não é assim. Aqui no Brasil, o Democratas deveria assumir a bandeira liberal social dentro da estratégia do próprio PSDB, que busca uma Social Democracia. As ideologias ficam muito próximas. Agora, há também por parte do PSDB o fato de taxar o DEM como os conservadores, considerando eles os avançados. Se isso continuar, fica difícil até uma coligação.

    O DEM participou da eleição de Micarla de Sousa para a prefeitura de Natal em 2008, mas hoje está distante da gestora. Como sr. vê a preparação do DEM para o pleito de 2012 em Natal?

    Micarla eu avalio como vítima de uma explosão de expectativas que ela provocou. Ela enfrentou uma máquina azeitada de governo e criou na população uma expectativa quanto ao resultado de suas ações administrativas. Não está conseguindo os resultados por falta de recursos. Não contou com o apoio do governo da época. Agora, Rosalba está iniciando ainda a gestão do governo com dificuldades financeiras. Então, Micarla enfrenta essas dificuldades, embora esteja firme com sua candidatura à reeleição. Para o pleito do próximo ano, acredito que o quadro está indefinido. Os times ainda estão se preparando para entrar em campo. Será uma eleição bem disputada. A oposição tem nomes de força. O governo, seja de Rosalba ou de Micarla, possui condições de arroxar a disputa. Na oposição, se fala em Wilma de Faria e Carlos Eduardo. No meu sistema, ainda não se fala em nomes, embora eu veja com muita simpatia o nome do deputado federal Felipe Maia (DEM).

    Dentro do DEM hoje o nome de Felipe Maia é unanimidade para disputar a prefeitura?

    Acho que é. Pelo meu conhecimento, é.

    A ideia do senador José Agripino de lançar um candidato único do sistema é válida?

    É válida. Acho muito interessante. Mostra a visão política do senador José Agripino, na medida em que a soma fortalece e a divisão causa enfraquecimento. Ele não disse que o candidato tem que serdo DEM. Ele defendeu um candidato único. Acho que esse único deve ser o melhor grupo para vencer as eleições.

    O sr. atribui as dificuldades de Micarla à falta de recursos. Foi só isso?

    Eu vejo por esse ângulo.

    Já a governadora Rosalba Ciarlini (DEM), prestes a completar um ano de mandato, enfrenta críticas da população. Como o sr. vê esse quadro?

    Dentro de uma avaliação de pé no chão, ela está indo bem. Assumiu o governo com equilíbrio, procura sanear as finanças, acumular recursos para programas ousados de investimentos e busca parcerias até no exterior. Não vejo motivos para a governadora receber críticas. Ela está fazendo o que é possível. É um governo de equilíbrio. Acho que ela vai indo muito bem.

    O sr. ficou sem mandato após a derrota de 2006, como candidato a vice-governador na chapa do então candidato a governador Garibaldi Filho. Olhando para o passado, há arrependimento de ter tomado essa decisão?

    A gente nunca deve se arrepender nem ter mágoa. Por isso, meu sonho de hoje é disputar o senado nas eleições de 2014.

    O sr. considera a aliança entre DEM e PMDB saudável para o seu partido?

    Acho que a derrota de 2006 deve levar democratas e peemedebistas a reflexões, antes de firmar qualquer compromisso para 2014. A experiência é concreta. É só estudar e ver qual foi o resultado.

    As bases do DEM e do PMDB hoje já conseguiram se unir no interior, ou hoje ainda há uma proximidade maior das bases do senador José Agripino com os eleitores da ex-governadora Wilma de Faria?

    As bases dos Alves com os Maias estão mais unidas. O percentual é maior do que o de 2006, mas ainda há muita resistência. Em política, não há unanimidade.


    topo_flip_DNDiário de Natal - Política
    Entrevista // "Meu sonho hoje é o Senado"

    Edição de domingo, 27 de novembro de 2011

    http://www.diariodenatal.com.br/capa/2011/11/27/


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    Edílson Braga // edilsonbraga.rn@dabr.com.br
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