Marca Maxmeio

De Olho Aberto

  • 30 de Agosto de 2008

    O tormento das pesquisas

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    Comecei a minha vida universitária sendo professor de “Sociologia” no curso indiferenciado – criado com a reforma universitária de então -, que obrigava todos os que ingressassem no curso superior terem noções de disciplinas básicas (entre elas Sociologia), independente da aprovação ter sido nas áreas de saúde, ciências sociais ou tecnológica.

    Na condição de professor de Sociologia (a minha graduação foi em Direito e Ciências Sociais), um dos temas que mais expunha e discutia na sala de aula era a importância da pesquisa aplicada.

    A pesquisa aplicada à economia, saúde, política, educação, ou a qualquer outra área, é sem dúvida instrumento sério e cientifico.

    Uma pesquisa se constitui em dois momentos fundamentais: a observação e a interpretação do que foi observado.

    A pesquisa é justificada e definida como método cientifico, expressão que vem do grego méthodos, (caminho para chegar a um fim). O método científico é um conjunto de regras básicas para desenvolver uma experiência e produzir algo até então desconhecid, ou esclarecer o que já se conhece.

    Para muitos sociólogos, o método científico nada mais é do que a lógica aplicada à ciência (Haddad).

    Fica, pois, claro que sou inteiramente favorável à pesquisa elaborada dentro dos padrões cientificos. Ela é instrumento indispensável para orientar mercados, levar à inovação, conhecer comportamentos sociais, como no caso do eleitorado em período de eleição.

    Isso não se discute.

    Pela minha vivência na vida pública (mais de quarenta anos) tenho colocações pessoais – baseadas em fatos reais – em relação ao uso da pesquisa em eleição no Brasil, e particularmente no Rio Grande do Norte.

    Com raras e honrosas exceções, a pesquisa no RN tem se transformado ao longo do tempo em moeda comercial.

    Há pesquisas para todos os gostos. O necessário é ter dinheiro vivo para financiá-las.

    Em 2004, aceitei um desafio do meu Partido (o então PFL) e por convocação pessoal do senador José Agripino disputei à Prefeitura de Natal. O meu nome foi lançado na véspera de terminar o prazo de registro. O PFL desde o início do processo estava disposto a fazer composição com a governadora Vilma de Faria, indicando o vice na chapa do prefeito Carlos Eduardo.

    No finalzinho do prazo para efetivar-se a indicação do Vice Prefeito, a governadora Vilma disse que não aceitaria o nome do hoje deputado Felipe Maia. Mais tarde, Felipe revelou-se na Câmara Federal político competente, com brilhante desempenho do seu mandato.

    Ouvi esse depoimento da própria governadora Vilma de Faria.

    Diante do impasse, progrediu a idéia do lançamento de Micarla de Souza, para vice prefeita de Carlos Eduardo, o que se consumou.

    O PFL ficou a “ver navios”. Sem chances – mas para atender ao senador José Agripino – entrei na disputa de última hora.

    Apresentei idéias, propostas, fiz tudo que podia para dá seriedade à campanha.

    Defendi uma Natal do futuro.

    Não fui ouvido. O candidato Carlos Eduardo Alves à época usou os mesmos métodos abusivos que usa atualmente.

    Fez reunião proibida em ONG parea distribuir favores e dádivas.

    Participou pessoalmente, ao lado da Governadora Vilma – com faixas contendo a sua propaganda pessoal – de campanhas de vacinação em massa, tudo custeado pelo Governo.

    Até um programa diário na mídia foi montado e custeado indiretamente (via entidade civil) pelo Governo, com o único objetivo de denegrir a minha imagem e enfraquecer a minha candidatura.

    Fatos públicos, notórios, que independiam de prova.

    Por falta de recursos não tinha advogado contratado em minha campanha.

    Junto com Ney Jr e a minha filha fomos o advogado da nossa coligação.

    Entrei com impugnações apontando o comportamento ilegal do prefeito, que infringia claramente a lei eleitoral. Juntei fotografias dos abusos e farta prova.

    Nada foi acolhido. Nem pelo Ministério Público. Nem pela justiça.

    A conduta de Carlos Eduardo foi tida como legal. Ele ganhou tudo.

    O fato dificultou o andamento da minha campanha à Prefeitura de Natal.

    Ao lado disso, as pesquisas com indicios claros e veementes de parcialidade, eram divulgadas e apontavam o meu nome em “baixa” crescente.

    As tais pesquisas eram de empresas que há tempo trabalhavam para o governo.

    Mesmo assim, nada que impugnei teve exito.

    Era um “rolo compressor”.

    Certa vez, estava num pequeno comício e “um empresário de pesquisa” me procurou e disse: “a sua candidatura só crescerá se você subir na pesquisa”.

    Perguntei-lhe: “ e o que devo fazer para subir na pesquisa?”

    Ele me disse: “ faço uma pesquisa semanal para você e a sua candidatura crescerá em média 5 pontos por semana”.

    E antes que falasse, arrematou: “isto custa dinheiro”.

    Indaguei, por curiosidade: “quanto?”.

    Respondeu: “ 25 mil por cada pesquisa”.

    Agradeci e disse-lhe que estava sem dinheiro, até para a gasolina dos carros.

    É esse o retrato da pesquisa eleitoral na tradição das eleições potiguares.

    No interior do Estado tenho vários depoimentos de amigos, semelhantes ao que ocorreu comigo em Natal.

    Há exceções, é claro. Não são todas as empresas, ou pesquisadores, que ferem a ética e transformam a pesquisa em moeda de troca.

    Nesse final de semana, em Natal, “choveram” pesquisas. Não discuto se elas são verdadeiras ou não.

    Certamente, há umas que sim e outras que não. Não cabe analisar, ou citar nomes.

    Apenas, pelo que sei do “mercado eleitoral” e dos instrumentos ilícitos usados para alavancar candidaturas deixo uma advertência para o internauta.

    Acreditem, desacreditando nas pesquisas eleitorais.

    Elas podem no máximo indicar um rumo, nunca uma definição de possibilidades reais.

    Nos bastidores das campanhas – sobretudo àquelas financiadas com dinheiro ou notória influência dos governos – o “vil metal” é a arma usada para “fazer de conta”  que os “os preferidos do rei” estão bem na eleição.

    A pesquisa em si – como dito – é um instrumento cientifico.

    Mas, da mesma forma que um medicamento manipulado pode matar, a pesquisa deformada fere de morte a democracia e leva muitos  bons candidatos ao óbito eleitoral, pelo fato do eleitor agir em função da máxima de que “não deseja perder o seu voto”.

    Senti tudo isso na pele em 2004, quando fui candidato a prefeito de Natal.

    O mais curioso é que certos “marqueteiros” (!!!) usam técnicas sofisticadas  para dá tom de seriedade aos resultados das pesquisas manipuladas.

    Quando candidato a prefeito em 2004, o tal programa montado na mídia para me combater, chegou a levar um matemático e empresário para dá entrevista e demonstrar por a mais b, que as pesquisas divulgadas contra mim eram verdadeiras.

    Sabia que não eram. Mas o que podia fazer? Nada. Apenas, suportar a pesada carga da injustiça e da pressão.

    Não perdi aquela eleição. Quem perdeu a eleição foi o então PFL. Mesmo assim, a causa maior do insucesso foram os abusos políticas e econômicos  praticados pelo “candidato oficial” e as pesquisas manipuladas, que desestimularam votos para mim.

    Se o eleitor não estiver absolutamente consciente de tudo isso, veremos em 2008 a repetição de anos passados. Ou seja, as pesquisas “encomendadas” provocarem estragos eleitorais fatais e muita gente ganhar dinheiro – e muito dinheiro – com isto.

    Por tudo sito, sempre defendi no Congresso Nacional a total e absoluta liberdade para as pesquisas eleitorais. Porém, a permissão de uso delas seria no âmbito interno dos partidos. Nada de publicação na mídia.

    Dessa forma, as pesquisas orientariam realmente os candidatos e jamais seriam instrumentos comerciais para fomentar o descrédito contra ninguém.

    Nâo consegui que a minha idéia prosperasse. Por isso, ninguém se engane. Se em 2008 mudou alguma coisa pela ação eficiente da justiça eleitoral foi muito pouco, porque a lei tendo sido mantida, a justiça não pode fazer milagre.

    A realidade sendo essa, a conclusão que se chega é que continua o tormento das pesquisas.


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